Rogério Christofoletti e Ana Paula França Laux
A disseminação dos blogs aponta para um novo relacionamento entre produtores e receptores de notícias. Christofoletti demonstra que os blogs não só funcionam como ferramentas de apoio a outros meios de comunicação, mas também como canal de experimentação de novos formatos e linguagens jornalísticas.
Nos Estados Unidos os blogueiros têm uma participação mais ativa, influenciando até na escolha de pautas. No Brasil os jornalistas-blogueiros são aqueles que já possuem um reconhecimento em outras mídias.
O quesito imprescindível no jornalismo é a credibilidade, este fator pode estar presente ou não no jornalismo on-line. Para entender melhor é preciso analisar o nascimento dos blogs. Nos anos 90 era uma espécie de diário virtual, com teor pessoal; alguns anos depois os jornalistas perceberam ali uma possibilidade de “mídia de um homem só”. Os blogs também mudaram a posição do receptor: ele deixa de ser passivo e passa a ser produtor de mensagem.
Hoje os blogs procuram aliar a credibilidade e velocidade. No entanto a necessidade de publicação quase de minuto a minuto, deixa a velocidade mais valiosa que a veracidade dos fatos, não dando tempo para a confirmação dos dados. Outro problema é o “copia e cola” das notícias, tornando difícil descobrir a origem da publicação.
Assim, a credibilidade dos sites on-line está ligada às mídias tradicionais, o que segundo Adghirni, mostra a “dependência e insuficiência da Internet como mídia”.
Já Catarina Rodrigues afirma que experiência, confiança e prestígio influenciam na relação do público com o blogueiro, ou seja, “um autor anônimo nunca terá a mesma credibilidade de alguém perfeitamente identificado” (p.36).
A mídia on-line ainda está em fase de crescimento, por enquanto livre dos domínios das grandes corporações de comunicação, tornando os blogs um meio de expressão da vontade popular; pois o público não recebe passivamente as informações, ele discorda, acrescenta dados e aponta erros.
Novas mídias, novos desafios para a credibilidade
Apesar de se tratar de uma mídia nova, muitos estudos e pesquisas têm surgido no campo do jornalismo on-line. Em 2006 foi realizado nos Estados Unidos o estudo “How credible are online news sources?”, em que 1649 pessoas responderam questões em quatro grandes sites de informação. As conclusões da pesquisa foram estas:
- mesmo utilizando os sites noticiosos com certa freqüência, as pessoas ainda acreditam que os jornais são mais confiáveis;
- para aqueles que responderam o questionário, o jornais são os que têm mais credibilidade (35%), seguido da Internet e da TV (ambos com 18%) e o rádio (12%);
- de acordo com a faixa etária, os mais velhos deram mais créditos aos veículos online;
- as pessoas acreditam mais em fontes da Internet vinculadas aos órgãos de imprensa ou redes de televisão com os quais estão mais familiarizados;
- a grande maioria respondeu que as notícias online são bem apuradas e atuais;
- concluiu-se, portanto, que os usuários da Internet condicionam o consumo de informações a outras mídias, mas mesmo assim a credibilidade dos conteúdos da web vem crescendo.
Outros estudos realizados chegaram a conclusões interessantes sobre essa nova mídia. No Brasil, uma pesquisa realizada em 2005 concluiu que muitas pessoas já acreditam na profissão de blogueiro. Em outra pesquisa realizada nos Estados Unidos, 13% das pessoas afirmaram que as notícias da Internet são as fontes de informação mais confiáveis.
Em 2004, no mesmo país, uma pesquisa concluiu que 20% dos leitores de jornal acompanhavam blogs com alguma freqüência, embora não regularmente. Um dos motivos seria o fato dos blogs noticiarem acontecimentos que não apareciam na grande mídia. Os leitores reconheciam que havia falhas no veículo, mas isto seria compensado pela abertura, interatividade e relatos mais honestos.
Enquanto isso, os pesquisadores já sabiam que os blogs influenciariam a grande mídia a se tornar mais interativa, dialógica e informal, pois “os blogs ajudam a questionar a objetividade jornalística, o equilíbrio do noticiário, a qualidade de apuração das informações” (p.39).
Outras semelhanças e diferenças entre blogs e a grande mídia seriam a) a segmentação de mercado, onde os “melhores” tem mais credibilidade, audiência e influência, enquanto os “piores”, apesar de também terem público, não têm tanta credibilidade, o que também acontece com alguns tablóides (neste caso, trata-se dos tablóides norte-americanos, uma vez que esta pesquisa também foi realizada naquele país); além disso, b) os blogueiros são editados depois de publicados, enquanto na grande mídia acontece o inverso: os repórteres são editados antes da publicação. Os blogs, assim, poderiam ensinar uma valiosa lição à grande mídia: o aprofundamento das matérias após a publicação. Já os blogs aprenderiam com a grande mídia sobre o que é importante para apurar as informações antes da publicação.
Diante de tudo isso, já estaríamos vivendo a terceira fase do jornalismo, o “Jornalismo 3.0”, “de socialização da informação, por meio de uma conversação virtual onde os participantes intervêm na própria mensagem” (Varela apud Christofoletti, Laux, p.41). Nesta fase, a intermediação entre a mídia e a fonte é reduzida – o blogueiro pode falar diretamente sobre os assuntos que desejar –, a comunicação se torna mais interpessoal, aproximando-se da conversação, entre outras transformações. Enfim, na terceira fase do jornalismo a informação está mais acessível a quem quer dar a notícia ou recebê-la.
Emergência de novos sistemas de reputação
A confiabilidade crescente nos meios online tem relação com a diminuição da credibilidade dos meios tradicionais, segundo estudos internacionais (da BBC e da Reuters, por exemplo). No entanto, os blogs ainda são as fontes de informação onde as pessoas depositam menos confiança. O Brasil é o país onde há menor confiabilidade nos blogs (20%) e maior desconfiança (45%), de acordo com uma pesquisa.
Uma saída para essa desconfiança são os mecanismos já utilizados na Internet, onde pessoas utilizam determinados serviços ou acessam determinados sites de comunicação e deixam registradas suas opiniões a respeito deles. É o caso da Amazon Books ou do Mercado Livre, onde os compradores avaliam o serviço prestado pela empresa, criando um banco de dados para os próximos clientes avaliarem se devem ou não solicitar o serviço. No caso dos blogs, os próprios blogueiros indicam links para outros sites e/ou blogs, abrindo um canal para que leitores acessem estes links e os avaliem também, numa espécie de credibilidade no “boca a boca”.
Apesar de contar com a avaliação pessoal do internauta, estes sistemas de avaliação são mais transparentes que os tradicionais, pois muitas pessoas avaliam o mesmo produto ou serviço, diferentemente do julgamento de uma única pessoa. Assim, trata-se de um meio de avaliação mais democrático.
Conclusão
A blogosfera utiliza-se dos mesmos critérios das mídias convencionais e dos mesmos sistemas de reputação para atribuir credibilidade às informações que veicula. No entanto, novos mecanismos têm surgido para que se estabeleçam critérios de confiabilidade de informações. Serão “dispositivos e sistemas que não apenas distingam qualidade jornalística, mas que também funcionem como certificadores da credibilidade dos meios onde se veiculam tais notícias” (p.46).
Além disso, os blogs têm atraído a atenção dos jornalistas que já possuem credibilidade na mídia tradicional, por se tratar de uma mídia que proporciona maior liberdade e instantaneidade, além da utopia profissional, afinal, os blogs são o caminho para a mídia individual, a mídia de um homem só.
No entanto, em uma época em que popularidade se confunde com reputação – onde confiabilidade e notoriedade parecem ser sinônimas –, o desafio de especialistas e profissionais é demarcar os contornos da credibilidade, seja na blogosfera ou na mídia convencional.
Fonte: CHRISTOFOLETTI, Rogério; LAUX, Ana Paula França. Confiabilidade, credibilidade e reputação: no jornalismo e na blogosfera. Intercom - Revista Brasileira de Ciências da Comunicação. São Paulo, v.31, n.I, p.29-49, jan./jun. 2008.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário