Webjornalismo: Da Pirâmide invertida à pirâmide deitada
João Canavilhas
Com o aparecimento do jornalismo digital, a técnica da pirâmide do jornal impresso está em debate devido à sua característica. Esta técnica apresenta as informações de uma notícia na ordem das mais importantes para as complementares. Isso possibilita ao editor de jornal fazer, quando necessário, cortes no final do texto para encaixar a redação na página do veículo. É também adotada pelas agências de notícia num seguimento de regras de mercado. Já o leitor, se considerarmos sua disposição de tempo e seu grau de interesse pela notícia, pode interromper a leitura quando julgar conveniente, sem o prejuízo de perder as informações essenciais.
No webjornalismo a pirâmide invertida é secundária. Porque o hipertexto – blocos correlativos de informação – permite leitura sistematizada. Cada leitor pode, por meio de menu ou palavras-índice, fazer acessos diferenciados.
Para conhecer a diversidade desses percursos de leitura, Canavilhas realizou uma experiência em que um número determinado de leitores tiveram disponível uma notícia com hipertexto. Por essa análise o autor apresenta estatísticas e uma nova forma de construção de texto, a que nomeia pirâmide deitada.
O desenvolvimento dos meios de comunicação
O desenvolvimento dos meios tradicionais de comunicação social tem a ver com fatores externos. A expansão das ferrovias, por exemplo, possibilitou a ampliação da área de influência dos jornais. Fato análogo ocorre na difusão do webjornalismo que está condicionada ao acesso. Este, no entanto, é bastante desigual entre os continentes.
Outro fator que limita os recursos digitais de informação é a ligação dial-up, que restringe ao usuário o acesso a grandes arquivos como os audiovisuais.
Desde os primórdios da edição eletrônica, os jornais foram sendo estruturados com informática e softwares afins. Com isso no advento da Internet as versões on-line de jornal foram criadas quase sem custo adicional. Alguns fatores como o de ordem econômica e a estrutura reconhecida de redação contribuíram para que o jornalismo on-line fosse desenvolvido com técnicas do jornal impresso.
Técnicas de Redação
As técnicas de redação sempre tiveram um grande destaque nos cursos de jornalismo. Mesmo em Portugal, onde não existe obrigatoriedade do diploma, Canavilhas ressalta que as escolas possuem em comum os conteúdos relacionados com técnicas de redação.
A técnica da pirâmide invertida segue uma ordem decrescente de importância da informação: começando com o lead, passando para os assuntos secundários e encerrando. O autor conta que a pirâmide surgiu durante a Guerra de Secessão nos Estados Unidos, quando o telégrafo ainda não era tão confiável e os jornalistas tinham que passar as informações mais importantes no início e, se desse, as menos importantes no final.
A pirâmide invertida, batizada assim por Edwin L. Shuman no livro Practical Journalism, tinha sua eficiência provada em casos de rotina e em textos que não exigiam criatividade, mas passou a ser questionada com o surgimento da web. Alguns autores (como Jacob Nielsen, Rosental Alves e José Álvarez Marcos) acreditam que a técnica seja uma boa opção para notícias de última hora na internet, outros (como Ralmon Salaverria e o próprio João Canavilhas) acreditam que neste outro meio a pirâmide pode tirar suas potencialidades, como a de explorar o hipertexto, por exemplo.
O hipertexto permite ao leitor navegar em uma arquitetura que só o ambiente virtual pode oferecer. Enquanto no jornal impresso o jornalista tem um espaço finito para escrever, na web não há. Ele pode oferecer novos caminhos ao leitor e também hipertextos multimídias.
Mas não é só o jornalismo que oferece esta possibilidade. Canavilhas cita o trabalho de Robert Darnton que defende o uso de hipertextos nas publicações acadêmicas. Nesta arquitetura proposta por Darnton, a publicação possuiria seis camadas, sendo que na última estariam as impressões dos leitores e discussões com o autor – o que, Canavilhas acredita, pode ser transposto para o jornalismo.
Pesquisa
Para comprovar que a técnica da pirâmide invertida não é a melhor escolha no webjornalismo, uma pesquisa foi feita com 39 alunos da Universidade Beira do Interior. Eles teriam que ler uma matéria, como fazem habitualmente, sem tempo limite. A notícia inteira tem dez páginas ligadas por links. O objetivo era ver como as pessoas iriam construir o eixo de leitura.
Entre os participantes da pesquisa:
-23% têm rotina de leitura por nível, ou seja, clica no link, mas volta para a página inicial e termina de ler o que havia começado;
-77% criam seu próprio eixo de leitura, de acordo com os links que são oferecidos;
-11% fizeram um percurso de leitura idêntico, com 11 passos iguais.
Canavilhas usa o resultado da pesquisa para argumentar que o método da pirâmide invertida não deve ser regra no jornalismo para internet. Ele explica que no trabalho de redação existem duas característica do texto: a dimensão (quantidade de notícias) e a estrutura (a forma). Assim, cada jornalista deveria escolher o que é melhor para o meio de comunicação. No universo da web, a forma não é tão importante, pois não existem as amarras de um espaço determinado do jornal para preencher.
A webnotícia pode seguir várias estruturas, classificadas pelo autor em:
-linear – os blocos de notícia são ligados por um eixo. Este pode ser unilinear (o leitor não pode ir de um eixo a outro, sem seguir uma ordem, pois as histórias são conectadas) ou multilinear (várias histórias que não precisam do eixo condutor);
- reticular – não tem eixos, assim o texto possui várias possibilidades de leitura;
-mistas – que unem as duas estruturas anteriores.
Por fim, há a proposição de trocar a pirâmide invertida pela deitada. Esta construiria a notícia, segundo os vários níveis de informação. O primeiro seria o da Unidade Base, a ponta, que viria com o lead. O segundo, da explicação, responderia ao porquê e ao como do fato, completando a parte essencial de uma notícia. No nível da contextualização seriam oferecidas mais informações, em vários tipos de mídia. O último, da exploração, ligaria a notícia a arquivos externos e ao próprio arquivo da publicação.
Para que a pirâmide deitada seja aplicada é preciso que o jornalista seja um profissional que se reinventa a cada matéria e saiba aplicar todas as ferramentas da internet em favor de quem busca a notícia.
Alunos: Osias Sampaio
Poliana Lisboa
Pauline Almeida
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário