segunda-feira, 6 de abril de 2009

Fotografia, Blogs e Jornalismo na Internet: oposições, apropriações e simbioses


Texto: Geórgia, Beatriz e Luis">

Vivemos na sociedade da visualidade, como afirma Baitello Jr.(2005), onde a imagem exerce fascínio sobre nossos olhos, em detrimento dos outros sentidos. Com o incentivo da visão, as imagens ganham espaço, e conquistam os olhares especialmente daqueles que mergulham na internet, local de grande atrativo para a disseminação fotográfica. Aliada a riqueza das cores e dinamicidade das figuras, a web é um meio amplamente utilizado para a divulgação de todo e qualquer tipo de imagem. E, como não poderia ser diferente, o fotojornalismo também conquistou seu espaço. A princípio, nos tempos do nascimento do webjornalismo, a inserção do material fotográfico na rede andava a passos lentos. No momento em que se efetivava um boom de conteúdos no sistema on-line, o mesmo não ocorria com a produção de imagens para rede, uma vez que faltava investimento. O jornalismo da web era basicamente textual.

Aos poucos esta realidade mudou. O formato Blog (Weblog), tão conhecido atualmente, ganhou destaque para a disponibilização de material jornalístico, mas nos primeiros anos de seu surgimento, apresentava poucas fotografias sobre os assuntos abordados. Isso ocorria em função do acesso restrito dos internautas à banda larga, especialmente no Brasil, o que dificultava obter as imagens, devido a lentidão da rede.

Juntamente com as transformações que se deram no blog, os veículos tradicionais migraram para a web, fazendo fusões e trocas de informação com este formato, dominado, praticamente pelos cidadãos. Assim, fotografia e texto ganham espaços ilimitados na rede, superando um dos obstáculos dos veículos impressos que trabalham com áreas restritas.

Sobre os assuntos dos blogs jornalísticos, um de grande expansão é o jornalismo cidadão e tem se tornando uma importante ferramenta para a expressão das idéias do público. O conceito de jornalismo cidadão, existe desde século XIX, mas nunca foi tão explorado como nos últimos anos. Foi por meio da fotografia digital que a participação do jornalismo cidadão se efetivou. Com este exercício, muitos amadores podem registrar cenas instantâneas (como acidentes, incêndios), que os profissionais poderiam não conseguir capturar em tempo hábil. Um exemplo deste tipo de participação é o blog Notícias de Blumenau, que iniciou sua atividade em decorrência das tragédias climáticas do litoral catarinense em 2008. O mesmo não transcorria no período da fotografia analógica, pois o acesso ao equipamento era bem menor do que hoje, devido aos altos custos. Além da câmera digital, os celulares também se tornaram ferramentas de registro do real, se tornando mais um aliado para o exercício do jornalismo cidadão.


Como se pode perceber, as facilidades que a internet oferece para a produção de conteúdos, aliado ao aumento de adesão da banda larga e ao barateamento das novas tecnologias (como a fotografia digital), efetivaram o exercício do jornalismo cidadão na rede. A preocupação que precisa ser constante é quanto ao limite entre o ato do cidadão e a função do jornalista, que foi capacitado para trabalhar com a informação, seja ela escrita ou fotográfica. Saber como organizar a informação ou ainda qual foto melhor representa o assunto tratado são só alguns dos detalhes que precisam ser analisados pelo profissional da comunicação social. Além disso, um jornalista requer formação ética e profissional para o exercício de sua atividade. O fato é que o jornalismo cidadão está presente e atuante e caminha lado a lado com o jornalista. Mas a discussão sobre o tema precisa ser constante para evitar abusos.

Um grande exemplo do uso da fotografia como meio de informação jornalística na era digital são os fotologs. De acordo com o Marcos Palacios, a diferença entre blogs e fotologs é que o segundo valoriza muito mais as imagens. Mas como nem todos os fotologs têm uma preocupação social ou são de oposição à grande imprensa, o autor propõe a seguinte classificação:

Blogs fotojornalísticos: têm mais textos do que fotos, se assemelham com os blogs dos jornais impressos.

Fotologs jornalísticos: são como galerias de fotografias, com pouco texto, sendo esse usado apenas para contextualizar. Um exemplo é o Foco Seletivo.

Fotologs jornalísticos de clipagem: muita imagem e pouco texto, apresentam também uma seleção de imagens jornalísticas da internet. Um exemplo é o Fotojornalismos.

Fotologs jornalísticos de discussão: alem das imagens, também se apresentam como um espaço de discussão jornalística.

De acordo com o autor, os meios de comunicação tecnológicos são cada vez mais usados em momentos de tensão, em que a grande imprensa tem medo, não pode divulgar ou não tem acesso a todos os dados da situação. Foi o que aconteceu nos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos E.U.A.

Nesse episódio, a internet foi usada em larga escala, tanto para comunicação interpessoal (troca de informação, saber notícias de outras pessoas), como para informações visuais (fotos e vídeos). Já durante a guerra do Iraque, os blogs passaram a divulgar mais imagens sobre a situação no país. Assim como quando aconteceu o Tsunami, em que a internet ajudou na assistência às vitimas e no repasse de informações. Além disso, outra forma de comunicação virtual foi experimentada no ataque terrorista de e de 7 de julho de 2005 em Londres, foram os MoBlogs (junção de mobile com blogs). Esse foi um meio de comunicação usado, em que as pessoas passavam fotos e informações pelo celular, usando a internet.

Os primeiros anos do século XXI foram marcados por atentados terroristas, catástrofes climáticas e uma série de eventos de relevante impacto social. Foi justamente neste contexto que o jornalismo cidadão, praticado no ambiente da web, despontou como uma vertente alternativa do jornalismo capaz de informar, em muitos casos, melhor que a grande imprensa. Claramente o desenvolvimento das tecnologias digitais e o consequente barateamento de câmeras fotográficas e celulares com dispositivos fotográficos embutidos facilitaram a vida do cidadão ansioso em retratar o cotidiano através de suas fotos. Por conseguinte a própria internet, com seus ágeis recursos de publicação e espaço praticamente ilimitado, foi o campo ideal para abarcar conteúdos produzidos por indivíduos comuns a princípio desconectados das empresas midiáticas. Segundo Palacios e muitos outros autores vivemos num momento cujas facilidades técnicas de produção e publicação de textos, imagens, vídeos etc. transformaram o cidadão, antes somente receptor, em um verdadeiro emissor de mensagens.


No entanto essa eufórica democratização das mensagens midiáticas não está livre de críticas. Embora haja, de fato, uma rápida e constante expansão informacional na web, grande parte das informações não foi processada de acordo com as técnicas jornalísticas, portanto não alcançaram ainda o status de notícia. Muito do que se vê hoje na internet é ruído. O internauta deve estar habituado para garimpar a imensa quantidade de dados, julgando-os como válidos ou não. Contudo nada disso impede que a grande imprensa beba na fonte da blogosfera. É cada dia mais comum grandes empresas jornalísticas buscarem informações e pautarem seus repórteres a partir de blogs. Muitas fotos e vídeos, capturados por câmeras amadoras, são incorporados ao arsenal da imprensa tradicional, por exemplo. Além disso, jornais consolidados e agencias de notícias já disponibilizam na web seus blogs, como é o caso do Wall Street Journal e Reuters, o primeiro sobre Legislação e o segundo para abrigar material alternativo dos fotógrafos profissionais da agência.

As portas vão gradualmente se abrindo. Alguns portais noticiosos além de contarem com suas equipes profissionais também investem para que o restante da sociedade participe enviando material. O site coreano OhmyNews, segundo Marcos Palacios, mobiliza mais de 41 mil repórteres não profissionais. No Brasil os portais Terra e Globo Online também cedem espaços para a publicação amadora, como é o caso do Vc Repórter e Eu-Repórter, respectivamente. A práxis jornalística, na atualidade, tende a agregar cada vez mais material não profissional, produzido pelos cidadãos de toda a parte do mundo. Caberá saber se os jornalistas num futuro próximo perderão terreno fértil de trabalho ou se irão conceber novas formas de retratar os fatos noticiosos do cotidiano.

Referências:

BAITELLO Jr., Norval. A era da iconofagia. São Paulo: Hacker, 2005.

PALACIOS, Marcos in BARBOSA, Suzana (Org.). Jornalismo Digital de Terceira Geração. Covilhã: Labcom – Universidade da Beira Interior, 2007.

Um comentário:

  1. O tão comentado "jornalismo cidadão" é algo que deve ser analisado com ressalvas.

    A idéia de termos "olhos" e "bocas" espalhados pelo mundo todo atrai pela possibilidade de acesso a informações, principalmente, aquelas que são marginalizadas pela grande Imprensa.

    Mas, até que ponto esses "olhos" sabem o que pode e como algo deve ser informado? Até que ponto as facilidades de publicação - potencializadas com o advento dos Blogs - não estarão contribuindo para a realização de um "não-jornalismo"?

    Estas são questões que estimulam as ressalvas a esse "jornalismo cidadão".

    No meu ponto de vista, a modalidade híbrida de blog e jornalismo é recente e deve ser estudada com cuidado. Somente depois de uma análise aprofundada, essas respostas serão conseguidas.

    Até lá, aproveitem e realizem o "jornalismo cidadão" até mesmo nesse blog de nome hiper-criativo!

    Vitor Oshiro

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